segunda-feira, 30 de junho de 2014

dizem que amar é difícil
talvez seja, talvez seja apenas
o que acontece que nos exige
abertura e generosidade

para saber perder

domingo, 29 de junho de 2014

arqueiros do mundo
em descaminho
seres ambulantes
conversam com rosas
disfarçadas de estrume
e se protegem do olfato
alegremente carente
do seu perfume

quinta-feira, 26 de junho de 2014

no mundo onde sou acolhido
as palavras têm personalidades
assim como os bichos e os homens
assim como o sol e o vento
assim como o sexo e o gozo
órbitas muito pessoais
seriedade
sorriso do lagarto
fumaças emboladas
bocas cruzadas
e ressuscitadas

acidez do meu país
indócil e meigo
maliciosamente
estranho a mim mesmo

hermanos e bumbas
fazem um caminho do nada
e para lá se encaminham

alimento familiar
regresso à casa

água sem terra


quarta-feira, 25 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

é preciso ter uma ideia
bastante clara de como o tempo
flui, e se é que flui, e o que isso pode
querer dizer, sei lá, mas é preciso ter uma
mente rude para sequer avaliar que
aquilo que acabou de acontecer hoje
esteve ensaiado
desde ontem, quando a mente ainda não era pequena
e as ideias pareciam estar seguras de si mesmas
e por que não resistir ao medo quando o presente
irrompe
quando
a ruptura é a nossa vida
surpresa
imprevista
abandonei uma coerência hoje
boa e perigosa
sonhos caem sobre a minha
cabeça durante a calmaria
da noite urbana
como se o que classificam de
inconsciente não passasse na
verdade de uma apocalíptica
cratera

domingo, 22 de junho de 2014

esconder
por que esconder?
revelar
por que revelar?
o outro e o meu em suas
saliências
salivas suor
saber saber saber
fazer fazer fazer

por que tantos por quês?

sábado, 21 de junho de 2014

um jovem se aproximou de mim
mas antes disso ele mijou no capim
tinha calça jeans camisa vermelha
tinha carinho e tinha sexo
enquanto o jovem mijava ali
um pouco antes de se anunciar pra mim
um pouco antes de tudo começar, e tudo ter um fim
eu olhava para o lugar mais branco e iluminado
o que me atraia era irrelevante perto do que me esperava
tudo isso, e o jovem ali mijando no capim
enquanto as horas se passavam dentro de mim

quinta-feira, 19 de junho de 2014

cuidado
chiado
dia enchido do corpo
meio oco
em sua sede pede
um copo

passado um dia
meio oco
milagre ilegítimo
arrogante

noite e dia
e tarde inteira
enchendo o oco
do meu corpo

a sede que aqui
resiste é tão forte
quanto o meu
corpo

quarta-feira, 18 de junho de 2014

frase que não sai da minha cabeça: deus está nos detalhes
quem os vê? onde estão os detalhes?

resposta do dia seguinte: lantejoulas, deus é uma lantejoula
para que sumir com as lantejoulas se tudo o que elas nos impactam é tão somente ornamento?
um dia me declararei
para o espelho
em admiração à
sua intimidade e frieza ao
seu reflexo e beleza à
sua crítica de horror
mordaz
colérica
à gentileza dissimulada
ao gesto imitado
de que alguém ali
verdadeiramente
me vê
a maior invenção do homem foi a tesoura
recortar o pequeno mundo
em pedaços generosos
para depois colar
em outro mundo
os fragmentos de corte
feito frestas para
paisagens
coartadas 

terça-feira, 17 de junho de 2014

acordar
colocar cordas onde havia
sonho
discordar
permitir o sonho quando se amarram
cordas

procura-se vivo ou morto
o desespero
o encontro
e a mistura entre os dois
provoca destempero na boa ordem alimentar

a merda que nasce do encontro
é a mesma que se joga na cara do mundo
a bosta que preenche o eu e o outro
sem ela
sem ele, sem nós

wanted dead or alive
frase de cowboys que no fundo estão a fim
pouco sacanas, seres práticos
quando não, loucos para dizerem sim

a fuga de alguém que não alcança fugir
o romantismo de quem persegue até o fim
à espera que o entusiasmo do covarde
possa redimir a sua própria imbecilidade