sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
"mas aí nada teria acontecido", foi o que ele disse para a menina ao meu lado. pensei se tratar entretanto de algo mais pessoal, dirigido a mim, no que parecia me assustava porque poderia me expor mais do que geralmente eu gostaria ou estou diariamente preparado a parecer. mas não havia sinceridade nem maldade na frase dele, era tudo mais ou menos como que uma reflexão fortuita que se encaixava no momento em que ela, ele e eu estávamos juntos mas não de mãos dadas. juntos e desconhecidos. afetuosos mas também intolerantes. a frase dele era algo que selava nossa efêmera união, o fraco e intenso - diria, o autêntico e o espontâneo - laço a nos atar. a frase dele era algo que desinventava a promessa de que a noite seria espetacular, colocando o inusitado justamente no interior das nossas gargantas. ele não falava sozinho, verdade; todos nós, a tríade que se formara feito mágica, como três que se angulam por se destoarem, conversávamos sobre o que era dito e não-dito, o silêncio também nos deixava em par. a fala permitia o grito e diante disso tudo era dito e repetido novamente, "nada teria acontecido" "nada teria acontecido", será que era o destino? eu não sei, talvez nem eles mesmos acreditassem que o destino é tão generoso assim; generosos são os gestos, o destino é maior e, por ser maior, impõe os seus paradoxos, é regado por contradições.
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