sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

"você se engana"
ela me disse isso com uma naturalidade invejável enquanto os carros passavam os mendigos esmolavam e minha atenção lutava para permanecer onde eu estava. eu sabia que ela estava certa; ainda assim, eu também sabia que eu estava certo.
sem paradoxos, a gente pedia mais uma gin e eu decidi sair até a varanda para fumar um cigarro. acendi o cigarro com a fala dela.
certezas certezas certezas, temos tantas delas que ficamos incertos, inseguros de qual delas efetivamente nos serve. meu cigarro ainda estava na metade quando ela se juntou a mim para recarregar meu copo e dizer
"o bem e o mal são iguais entre si"
nesta noite, ah, na confusão apaixonada eu encontrei o amor da minha vida.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

domingo, 26 de outubro de 2014

andando sobre o tráfego
sob o risco da chuva
preferi seguir

continuar não rompia
entendia-se com as ideias de
outrora

sem romper, dei a face para
uma ilusão pesada
arcando nas costas as dores do peito

se a ilusão não era de ar
também não era de aço
mais solúvel do que infinita
lufada de tequila sob a química do cimento

a construção que foi feita no meu andar é muito pouco trivial
ela me reduz, sem no entanto me apagar

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

There's something that I need to say
Always have a way to get away
let's find our way
Way out, out of my way

I want to break away but 
there's something missing
Something that I should tell you
So you must run out
Run out so far as you can
Out of my way

If you find a way
it might be that
we always can get away

away to out away to out away to out, and stay.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

"[...] o primeiro efeito que aparece da imago no ser humano é um efeito de alienação do sujeito. É no outro que o sujeito se identifica e mesmo se experimenta de início. Essa relação erótica em que o indivíduo humano se fixa a uma imagem que o aliena em si mesmo, eis aí a energia e eis aí a forma onde tem origem esta organização passional que ele chamará de seu eu"
Falo falho fracasso: potência de ser ou de ter; 
desejo é a porta-fala da insatisfação; 
o perigo é ceder ao desejo; o perigo é acreditar que o atendemos.

"A chamada sexualidade fundamental de Freud consiste em observar que o que tem a ver com sexo é sempre mal-sucedido. É a base e o princípio da própria idéia de fiasco.  próprio fracasso pode ser definido como o que é sexual em todo ato humano. É por isso que há tantos atos falhosFreud indicou, perfeitamente, que um ato falho tem sempre a ver com sexo. ato falho por excelência é precisamente o ato sexual. Um dos dois está sempre insatisfeito.  É preciso dizer a verdade afinal de contas. é disso que sempre as pessoas falam."

terça-feira, 14 de outubro de 2014

eu, que acredito em magia e tudo o mais,
digo amor
um engano, cai quando completo na fala anuncia o que se tem por não ser feito para superá-lo, de deixá-lo existir para insistir no que não pôde mais ser olvidado, ainda; eu me expresso nele inteiramente, abundante, sem erro a não ser o de assumir ali o que é dito; fora do interdito, nisso que está para ser habitado porque querendo ou não o engano se tornou morada, casa onde habito sem saber; trombeta da minha luta em não ser um menor abandonado dentro de uma casa alheia que é completamente minha; talvez a única casa própria; um estranho no ninho. seguir esse chamado, tornar-me o que engana e é enganado, alheio e exclusivo;
hoje eu não quero mais me machucar.

terça-feira, 7 de outubro de 2014


[um contemporâneo. Vejo “formas de amizade restringidas, não segregativas. A singularidade se conserva na generosidade extensa. Não é pacto, não é contrato, não é adulação. Os amigos não são sócios nem contraem obrigações. Transitam sua amizade no ex-sistir e no pensar em comum que os converte. Pode haver distância com o amigo, isso não faz impossível a amizade e, se há proximidade, não se deve perturbar o pensar”.

Um uso diferente:
A arrogância tem vários nomes, um deles é o desejo de contar com um passaporte diplomático. Na prática clínica encontra-se um uso diferente, produzir no sujeito a ignorância, a experiência de seu não querer saber nada sobre isso, molestar a defesa, ir contra o sentido gozado, iluminar a opacidade desse gozo.]

quinta-feira, 2 de outubro de 2014


os velhinhos na universidade se encontram e debatem os rumos da sociedade que deveria vir-a-ser; no metrô, os brutos escancaram uma fala estapafúrdia contra o programa social, "filhos são trocados por 70 reais"; fingindo concentração e simulando inteligência, a estudante à minha frente, também no vagão, lê o último volume da biografia bem divulgada do nosso zumbi Getúlio Vargas; eu insisto em querer dizer que há algo de singular em todos e em cada um desses eventos, e resisto à confusão que me acoberta.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

onde isso era
onde isso era, eu devo vir-a-ser
eu devo vir-a-ser
onde isso era
onde isso era
"como chegar ali, para me fazer ser ali?"

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

há tempos em que eu não sei contar os dias
os minutos viram horas, as semanas viram meses
os próprios meses parecem abandonados de si e do outro
o tempo exila-se para o interior, um lugar qualquer que eu persisto em descobrir
logo ele, o tempo, que insiste tanto em passar
forçando uma casa, morada onde ele apresenta-se estranho, inesperado

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

ansiedade
ansiolítico
paleolítico
paralelepípedo
para-brisas-para-raios-para-tudo
era um vidro quebrado
de ponta rosa
nos meus dedos
cor de lua

declarado o início
daquele começo
coração sente
cabeça mente
e os meus dedos não mais
em cor de rosa
vermelhos
por isso te espero
no hábito fora de costume
improvável, intempestivo
ao som de rodovias
em tempestades
o meu tom maior
múltiplo e sempre
em piso, fluídos
meus sonhos são
outros

domingo, 21 de setembro de 2014

ele sorriu

como recusar o profano
na beleza que ele desdobra?
aceitar a beleza da vida
complicar o lado podre
não para mantê-lo em si, esculpido e disfarçado
do que lhe é bruto

do belo, nada se cria. é preciso o estranho
para o puro vir a ser.

sábado, 20 de setembro de 2014

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

conversa interior
mantida no infinito
abertura

transição
sem norte, como ousaria algum
qualquer um

entretida por fiapos
novidades de lã
que me aquecem

e me enrolam

onde está você?

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

a mente fecha o que antes havia
aberto no peito
o amor muda-se no que é feito
interdito
o que já era transforma o que é-vir
novamente
e este benefício da dúvida é o que nos
une por direito
o que importa saber quando o que era
era apenas bravo?

o que importa saber quando todo o
o outro foi perdido em si mesmo?

terça-feira, 5 de agosto de 2014

recebo no presente
a mensagem que enviei há
10 anos atrás, ou ja passam dos 11 anos?
não sei, isso importa? não muito.
recebo o presente pensando que ele
veio do que era antes, de quem por um
curto período de ar, foi um amor.
minhas mãos seguravam o amor
do presente que me
chegou por mãos trêmulas e verdadeiras,
não me importa o quanto elas mentem,
não é que não me importe com a verdade das mãos, eu
até aprecio um papo franco, honesto,
mas nesses dias, qualquer traço de honestidade é uma
verdadeira afronta contra a verdade, então
eu não me importo com a inverdade, em respeito
ao que é surreal em todo o sentimento possível, o que estou a dizer? sei lá.
falava do presente que veio de mãos em mãos,
sem causa, sem lastro, um presente,
no presente,
de amor.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

somos
muito
fisicamente
muitos
inconscientes
nota mental:

desconstruir um tabu não é simplesmente revelar a sua verdade mas também conversar com o mistério que ele encerra.

vagaroso movimento de ir e
voltar
voltar voltar voltar voltar voltar
lançamento desesperado no já
conhecido do desconhecido
na transparência do opaco
sentimento de ser e estar em
várias pessoas, não estar em lugar nenhum
nem aí
nem aqui

ele me disse a fórmula das rochas
disse saber como as pérolas são feitas
disse também que não era preciso ter medo
o escuro também nos acolhe em seu temor

conversamos sobre o que havia no céu
além das estrelas, havia planos
sólidos mundos de carne e osso e coração
afetos plantados na poeira de saturno

escutei atento, curioso e indeciso sobre o
que ele me dizia
na verdade
sobre o que ele me diz e continua a dizer
o erro dos físicos é o de adorar os seus objetos
mais do que as suas leis
soberbas
efeitos da fantasia
inconsciente

quinta-feira, 24 de julho de 2014

percorri a estrada que leva
ao oeste fardo
duro de suportar

eu, que sou do interior
abri caminho no pasto largo
de trilhas longas e apertadas

no caminho da pressa
havia uma lesma
carnuda e gosmenta

compreendo as lesmas
mas matei essa aí
naquela passagem era ela ou eu

o mundo tem dessas
coragens bestiais

domingo, 6 de julho de 2014

I'm naked
I'm numb
I'm stupid
I'm staying
And if cupid's got a gun, then he's shootin'

Lights black
Heads bang
You're my drug
We live it
You're drunk, you need it
Real love, i'll give it

So we're bound to linger on
We drink the fatal drop
Then love until we bleed
Then fall apart in parts

You wasted your times
On my heart
You've burned
And if bridges gotta fall, then you'll fall, too

Doors slam
Lights black
You're gone
Come back
Stay gone
Stay clean
I need you to need me

So we're bound to linger on
We drink the fatal drop
Then love until we bleed
Then fall apart in parts

Now we're bound to linger on
We drink the fatal drop
Then love until we bleed
Then fall apart in parts

quinta-feira, 3 de julho de 2014

terça-feira, 1 de julho de 2014

esperando uma surpresa
prevista o imprevisto
acontece e me
mostra que
eu não
sei nada de surpresas

segunda-feira, 30 de junho de 2014

dizem que amar é difícil
talvez seja, talvez seja apenas
o que acontece que nos exige
abertura e generosidade

para saber perder

domingo, 29 de junho de 2014

arqueiros do mundo
em descaminho
seres ambulantes
conversam com rosas
disfarçadas de estrume
e se protegem do olfato
alegremente carente
do seu perfume

quinta-feira, 26 de junho de 2014

no mundo onde sou acolhido
as palavras têm personalidades
assim como os bichos e os homens
assim como o sol e o vento
assim como o sexo e o gozo
órbitas muito pessoais
seriedade
sorriso do lagarto
fumaças emboladas
bocas cruzadas
e ressuscitadas

acidez do meu país
indócil e meigo
maliciosamente
estranho a mim mesmo

hermanos e bumbas
fazem um caminho do nada
e para lá se encaminham

alimento familiar
regresso à casa

água sem terra


quarta-feira, 25 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

é preciso ter uma ideia
bastante clara de como o tempo
flui, e se é que flui, e o que isso pode
querer dizer, sei lá, mas é preciso ter uma
mente rude para sequer avaliar que
aquilo que acabou de acontecer hoje
esteve ensaiado
desde ontem, quando a mente ainda não era pequena
e as ideias pareciam estar seguras de si mesmas
e por que não resistir ao medo quando o presente
irrompe
quando
a ruptura é a nossa vida
surpresa
imprevista
abandonei uma coerência hoje
boa e perigosa
sonhos caem sobre a minha
cabeça durante a calmaria
da noite urbana
como se o que classificam de
inconsciente não passasse na
verdade de uma apocalíptica
cratera

domingo, 22 de junho de 2014

esconder
por que esconder?
revelar
por que revelar?
o outro e o meu em suas
saliências
salivas suor
saber saber saber
fazer fazer fazer

por que tantos por quês?

sábado, 21 de junho de 2014

um jovem se aproximou de mim
mas antes disso ele mijou no capim
tinha calça jeans camisa vermelha
tinha carinho e tinha sexo
enquanto o jovem mijava ali
um pouco antes de se anunciar pra mim
um pouco antes de tudo começar, e tudo ter um fim
eu olhava para o lugar mais branco e iluminado
o que me atraia era irrelevante perto do que me esperava
tudo isso, e o jovem ali mijando no capim
enquanto as horas se passavam dentro de mim

quinta-feira, 19 de junho de 2014

cuidado
chiado
dia enchido do corpo
meio oco
em sua sede pede
um copo

passado um dia
meio oco
milagre ilegítimo
arrogante

noite e dia
e tarde inteira
enchendo o oco
do meu corpo

a sede que aqui
resiste é tão forte
quanto o meu
corpo

quarta-feira, 18 de junho de 2014

frase que não sai da minha cabeça: deus está nos detalhes
quem os vê? onde estão os detalhes?

resposta do dia seguinte: lantejoulas, deus é uma lantejoula
para que sumir com as lantejoulas se tudo o que elas nos impactam é tão somente ornamento?
um dia me declararei
para o espelho
em admiração à
sua intimidade e frieza ao
seu reflexo e beleza à
sua crítica de horror
mordaz
colérica
à gentileza dissimulada
ao gesto imitado
de que alguém ali
verdadeiramente
me vê
a maior invenção do homem foi a tesoura
recortar o pequeno mundo
em pedaços generosos
para depois colar
em outro mundo
os fragmentos de corte
feito frestas para
paisagens
coartadas 

terça-feira, 17 de junho de 2014

acordar
colocar cordas onde havia
sonho
discordar
permitir o sonho quando se amarram
cordas

procura-se vivo ou morto
o desespero
o encontro
e a mistura entre os dois
provoca destempero na boa ordem alimentar

a merda que nasce do encontro
é a mesma que se joga na cara do mundo
a bosta que preenche o eu e o outro
sem ela
sem ele, sem nós

wanted dead or alive
frase de cowboys que no fundo estão a fim
pouco sacanas, seres práticos
quando não, loucos para dizerem sim

a fuga de alguém que não alcança fugir
o romantismo de quem persegue até o fim
à espera que o entusiasmo do covarde
possa redimir a sua própria imbecilidade