terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

improvável diante do que ele espera
aceito a palavra que me ofende
me conjugo, tornando-me metade do que
ele diz, mas a metade falsa do que ele me diz
feita pra mim, inteiro por ser carente
perdoo-me pela minha autossuficiência 
e nego justamente aquilo que nunca serei

sorte é poder viver no mundo com ilusões
pagas, baratas e às expensas

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

em certos momentos parece que sofrer de amor é o máximo,
o auge, o cume
verdadeira experiência de luxo em um mundo de miseráveis

sábado, 21 de fevereiro de 2015

o desejo de entender os semelhantes conduz a desafio imposto de entender a mim mesmo
o que era estranho ali, passa a ser estranho aqui
quem era horrível de lá, ganha reflexo de cá
a beleza deixa de ser exclusiva
o perverso me implica em seu traço
desconheço o que era feito lá
reconheço onde tudo existe
aqui

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"mas aí nada teria acontecido", foi o que ele disse para a menina ao meu lado. pensei se tratar entretanto de algo mais pessoal, dirigido a mim, no que parecia me assustava porque poderia me expor mais do que geralmente eu gostaria ou estou diariamente preparado a parecer. mas não havia sinceridade nem maldade na frase dele, era tudo mais ou menos como que uma reflexão fortuita que se encaixava no momento em que ela, ele e eu estávamos juntos mas não de mãos dadas. juntos e desconhecidos. afetuosos mas também intolerantes. a frase dele era algo que selava nossa efêmera união, o fraco e intenso - diria, o autêntico e o espontâneo - laço a nos atar. a frase dele era algo que desinventava a promessa de que a noite seria espetacular, colocando o inusitado justamente no interior das nossas gargantas. ele não falava sozinho, verdade; todos nós, a tríade que se formara feito mágica, como três que se angulam por se destoarem, conversávamos sobre o que era dito e não-dito, o silêncio também nos deixava em par. a fala permitia o grito e diante disso tudo era dito e repetido novamente, "nada teria acontecido" "nada teria acontecido", será que era o destino? eu não sei, talvez nem eles mesmos acreditassem que o destino é tão generoso assim; generosos são os gestos, o destino é maior e, por ser maior, impõe os seus paradoxos, é regado por contradições.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

eu não faria nada diferente
dizer isto parece impor às coisas
um destino que desilude porque é potente
a ilusão assim como a vida é flexível e exigente

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

"você se engana"
ela me disse isso com uma naturalidade invejável enquanto os carros passavam os mendigos esmolavam e minha atenção lutava para permanecer onde eu estava. eu sabia que ela estava certa; ainda assim, eu também sabia que eu estava certo.
sem paradoxos, a gente pedia mais uma gin e eu decidi sair até a varanda para fumar um cigarro. acendi o cigarro com a fala dela.
certezas certezas certezas, temos tantas delas que ficamos incertos, inseguros de qual delas efetivamente nos serve. meu cigarro ainda estava na metade quando ela se juntou a mim para recarregar meu copo e dizer
"o bem e o mal são iguais entre si"
nesta noite, ah, na confusão apaixonada eu encontrei o amor da minha vida.

terça-feira, 4 de novembro de 2014